Texto de Leandro Santos de Lima

Taubaté está em seu quarto século de vida e durante todo esse tempo a sociedade que aqui vivia configurou valores norteadores por modos de agir que ultrapassaram a linha divisória das gerações.

Hoje, porém, muito desses costumes foram aniquilados pelas forças da modernidade e conseqüentemente foram fadados ao esquecimento. A atitude perante à morte foi um desses costumes afetados que acabou sofrendo mudanças no seu tratamento. A exposição de dois modelos separados na linha do tempo representa muito bem as transformações sofridas na mentalidade de uma mesma sociedade, neste caso a taubateana. Um dos modelos foi encontrado durante o período colonial e parte do período imperial e o outro modelo teve início nas últimas décadas do século XIX e firmou-se em meados do século XX.

O primeiro modelo constitui um conjunto de rituais apoiados em dois pontos cruciais que formavam a base da elaboração de sua organização, tanto material quanto mental: o caráter familiar e o caráter público da morte.

“Caixões diversos”, de Jean Baptist Debret (Acervo BBM/USP)

A morte e a sua organização ritual eram familiares, isto é, desde o princípio da enfermidade até os assuntos funerários eram definidos no âmbito familiar do moribundo. Tão logo é dada a notícia pelos parentes ao enfermo sobre a proximidade de sua morte, indicando com isso que não se morria sem ter a consciência da própria morte. O doente consciente do seu fim o aceitava, pois a morte não era temida, contanto que fossem tomadas as medidas necessárias para se ter uma Boa Morte. Essas medidas eram registradas pelo próprio testador em seu testamento e se referiam basicamente a organização dos rituais fúnebres que se iniciavam no próprio momento do transpasse da alma para o outro mundo.

Morria-se em casa e rodeado por parentes e amigos – às vezes até por curiosos que passavam pela rua. Essa cena mostra que a morte não era “escondida” de ninguém, nem mesmo das crianças. Após a partida do ente querido, os rituais fúnebres seguiam suas etapas: o velório era feito na própria casa do defunto que já estava sendo preparado para seu cortejo até o local de seu sepultamento em alguma igreja. Vestido com sua mortalha, o corpo seguia pelas ruas acompanhado pelas pessoas atraídas não só pela proximidade  social com o defunto, mas também pelo “sentimento festivo” do momento. Isso mesmo, nessa ocasião era comum: músicas, fogos, distribuição de alimentos e bebidas, pois a despedida social do morto, feita durante o caminho até a igreja escolhida por ele para sua morada eterna deveria ser pomposa. Uma das ruas mais utilizadas para esse fim era a Rua das Flores, atual Rua Visconde do Rio Branco que segue em direção ao Convento da Santa Clara. Esse cortejo era organizado com o intuito de oferecer um atrativo festivo para os membros da sociedade, o que possibilitava ao anfitrião maior prestígio social, enfatizando dessa maneira o caráter público da morte como base desse modelo.

“Enterro de uma mulher negra”, de Jean Baptist Debret (Acervo NYPL)

Já o corpo estando na igreja de sua escolha, eram rezadas as missas de corpo presente e depois o enterro era feito dentro do próprio recinto num local pré-determinado pelo morto. Em seguida vinha o luto identificado pela comoção sentimental e visual, representado pela vestimenta negra que então se tornava traje obrigatório durante meses.

A morte que era tão presente e tão familiar, aos poucos foi desaparecendo do círculo social. Essa tendência é o que caracteriza o segundo modelo denominado pelo historiador Philippe Ariès de “A morte Interdita”.

Os ventos da modernidade intensificaram-se nas últimas décadas do século XIX, trazendo à tona o conceito de uma vida feliz e nesse contexto a morte foi considerada como um incômodo social que nada contribuía para a tão sonhada – e utópica – felicidade coletiva. Dessa forma, os assuntos inerentes à cessação da vida sofreu um longo processo de escamoteamento que teve início na consciência da morte que foi privada do próprio moribundo no sentido de poupá-lo do sofrimento, seus parentes já não têm mais coragem de lhe contar o que realmente o espera, escondendo-o a verdade. Para as crianças são contadas algumas daquelas historinhas do tipo ”ele vai – ou foi – viajar”, buscando com isso não aterrorizá-los com a notícia de nossa única certeza, o fim natural da vida.

O que antes se passava no ambiente familiar, agora se passa longe desse círculo afetivo. Hoje em dia, o moribundo vai ao hospital para morrer e durante sua agonia solitária, as únicas pessoas a quem deposita sua confiança é o corpo de funcionários clínicos. Mesmo depois da morte toda a preocupação com o aparato funerário fica por conta das empresas especializadas no assunto e não mais dos familiares, ou seja, a morte virou um “negócio”, que por sinal é bem lucrativo!

Uma loja de caixões

É preciso “livrar-se” logo dos vestígios da morte. Após o enterro procura-se não mais tocar no assunto. Cremar o corpo também está sendo um forte exemplo da tendência em fazer com que estes vestígios indesejáveis virem cinzas para não mais permanecerem as vistas da sociedade. Emocionar-se publicamente… isso nem se fala. O período de luto, anteriormente tão respeitado, atualmente passa despercebido, até o uso do vestuário negro já não quer dizer mais nada, devido a exigência da comoção particular e em local privado imposta pelas novas regras da sociedade.

Enfim, essas mudanças são os resultados de um longo processo histórico, tão longo que passa despercebido aos olhos do homem contemporâneo, mas ele está presente. Os poucos resquícios do antigo modelo que ainda permanecem vivos, porém cada dia mais sufocados, podem ser encontrados nas concepções e costumes dos mais idosos, e em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, onde os ventos da modernidade não sopraram o suficiente para derrubar as bases tradicionais do culto à morte. Contudo, é sabido que a morte permanecerá assolando a mente dos homens e por sua vez, gerará modelos de tratamento perante esse fim, mas o que não se sabe é quais serão os costumes adotados pelas novas gerações, uma vez que a realidade das sociedades atuais apresentam constantes oscilações de comportamento identificadas sob uma forma de “modismo”, o que deixa dúvidas de como serão as regras sociais de um futuro próximo.

 

 

►Leandro Santos de Lima é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo

 

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