Como os taubateanos eram vistos pela Coroa no século 17

O coração do bandeirante foi herdado das feras; A Vila de Taubaté alcovitava todos os assassinos; os taubateanos semeavam ruas com chumbo; a hoje pujante São José dos Campos e a bela São Luiz do Paraitinga foram povoadas por vadios, facinorosos e bastardos.

Estas afirmações constam em documentos oficiais produzidos por funcionários do Rei de Portugal e investigados por historiadores nas últimas décadas.  Nós resumimos para você, em notas curtas, três episódios contados sob a ótica do colonizador português. Fica o aviso: é a visão do colonizador sobre o colonizado.

 

Difamação Oficial

Se formos nos basear nos relatos que o Ouvidor do Rio das Mortes Dr. Thomaz Rubim recebeu sobre a turma da Vila de Taubaté, os descobridores do ouro em Minas era de gente da pior espécie. Detalhe: o denunciante era um tal José Álvares de Oliveira que também cobiçava o controle da região.

 

Coração Selvagem

Os documentos oficiais tratam os bandeirantes como bárbaros sanguinários que se apropriaram das Minas de Ouro. Além de apelidar os forasteiros de Emboabas, estes bandeirantes ainda tentavam expulsar da região quem não fosse da turma.  Para queimar ainda mais o filme, os emboabas espalhavam que os bandeirantes moravam junto às matas para “se comunicarem com as feras de quem herdavam os corações”. Tudo gente boa…

 

Cão do Inferno

Um taubateano apelidado de “Jaguara”, tido como “matador por ofício”, foi acusado de se embebedar para aterrorizar vilarejos “semeando as ruas de chumbo”.  Ele seria tão cruel que era comparado a Cérbero, o guardião das portas do inferno na mitologia grega.

“Enquanto Cérbero no inferno era faminto de Almas, o Jaguara das minas era de vidas”, escreveu José Álvares.

Covil de Todos os Assassinos

Em 1719, um alto funcionário da coroa foi baleado numa emboscada na  Vila de Taubaté, falecendo dias depois. Seu nome: Carlos Pedroso da Silveira, o homem que apresentou a novidade mais esperada em Portugal havia 200 anos: as primeiras amostras de ouro que chegaram às mãos do Rei.

 

X-9?

Na versão oficial, Pedroso era um súdito leal do rei numa terra em que viviam homens que “nem todos os exércitos da Europa” seriam capazes de impedir que caminhassem livremente e que guiavam-se pela conveniência e pelo gosto, “bases que fundam os alicerces dos seus interesses”. Pelo fato de ser leal ao Rei, os poderosos da Vila mandaram matá-lo.

 

Tá com medo?

O governador mandou uma carta queixando-se da demora na prisão dos assassinos de Pedroso deixando clara sua antipatia pela turma de Taubaté:

“Mui admirado que não procurasse prender os delinquentes. O caso é grave e o morto é pessoa importante. Você deve dar satisfação a esta queixa para que servisse de exemplo e esta região não continuasse a ser o covil de todos os assassinos. Você parece temer mais a indignação dos homens que a de Deus”. Parece que a autoridade local temia mais os homens daqui. O assassino de Carlos Pedroso ficou livre.

 

Rota das Indústrias

Carlos Pedroso da Silveira batiza a rodovia que começa no bairro do Bonfim e termina em frente à fábrica da Volkswagen.

 

Içá Asqueroso

Os paulistas viviam em terra “depravada nos costumes”, “sem sujeição ou civilidade alguma”. Muitos eram assassinos e sentiam repugnância pelo trabalho, preferindo sair pelas matas “se alimentando de “bichos imundos e coisas asquerosas”. Palavras do colonizador português.

 

Oxigênio Contaminado

Para as autoridades da Coroa, o caráter deturpado dos colonos tinha uma causa: eram os malefícios dos ares da América.  O mal da preguiça não era privilégio dos homens nascidos na Colônia: contagiava também os portugueses que passavam a habitá-la.

 

Legislação Anti-Preguiça

Para combater a vadiagem paulista foi promulgada a Lei dos Sítios Volantes, de 1766, que previa a fundação de novas vilas para onde deveriam ir os “vadios, facinorosos e bastardos”, acompanhados de suas famílias. Nesses lugares o povo seria reeducado ao gosto dos portugueses.

O Governador Morgado de Abreu achava que São Paulo era uma terra “depravada nos costumes”. Para sanar o problema o governador criou uma lei em que criava lugares para enviar os “vadios, facinorosos e bastardos”. Adivinhe quais cidades valeparaibanas surgiram em decorrência dessa lei… Credito da imagem: Unesp

São José nasceu Assim…

Assim, entre outras, foram fundadas as vilas de São Luiz do Paraitinga e São José da Paraíba, (atual São José dos Campos). Os “selvagens” transformaram-se em povoadores de rincões distantes, abriram estradas, consertaram pontes e caminhos e impediram a penetração espanhola em áreas fronteiriças. Coisas que preguiçoso nenhum faria.

Crédito da imagem do cabeçalho: Guerrilla, Rugendas

 

Bibliografia:

Bandeirismo paulista: o avanço da colonização e exploração do Brasil (Taubaté, 1645 a 1720) Leandro Santos de Lima

Caminhos e Fronteiras, Sérgio Buarque de Holanda

Documentos Interessantes para Histórias e Costumes de São Paulo. Antonio Toledo Poza

Documentos manuscritos avulsos da Capitania de São Paulo. José Robson de Andrade Arruda

Colonial: o Governo do Morgado de Mateus em São Paulo, Heloísa Liberalli Belloto

São Francisco das Chagas – livros 1 e 2, José Bernardo Ortiz, 1996

Taubaté nos primeiros tempos, Gilberto Martins, Taubaté, 1973

Vai trabalhar paulista!, Lilian Lisboa Miranda. Revista de História.

Relato de José Álvares de Oliveira ao Ouvidor-Geral Thomas Rubim em 1750

Histórias e Costumes de São Paulo, Antonio Toledo Piza

 

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